Florestas tropicais: múltiplos benefícios e resiliência

Qual é o papel das florestas tropicais na sobrevivência da vida na Terra?

As florestas tropicais ocupam um pouco menos de 10% da superfície da Terra, uma área de quase 1,2 bilhões de hectares. E, apenas nesse espaço, concentram a maior parte da biodiversidade global. Por exemplo, possuem 62% dos vertebrados já descobertos, mais que o dobro que qualquer outro bioma.  Por isso, florestas tropicais se destacam pela grande diversidade de vida, reunindo inúmeras espécies de plantas e animais.

Entre a vegetação, encontramos desde pequenas plantas, como samambaias, orquídeas e trepadeiras, até árvores imponentes, como o ipê, a samaúma e a seringueira. Essa variedade também aparece na fauna, que vai de animais menores, como borboletas, sapos e beija-flores, até grandes mamíferos, como a onça-pintada, o tamanduá e o bicho-preguiça.

Mas essas características se diferenciam dependendo de sua localização. As florestas tropicais possuem esse nome pois estão localizadas nos trópicos de Câncer e Capricórnio, em torno da linha do Equador.  Mas elas são demarcadas não apenas pela localização, mas sim pelas condições climáticas, como temperaturas elevadas e chuva intensa praticamente o ano todo.

As florestas tropicais são divididas em:

  • Florestas tropicais úmidas, com chuvas abundantes o ano todo e uma grande diversidade de árvores, que formam camadas e um dossel bem preenchido.
  • Florestas tropicais sazonais, possuem chuvas concentradas no verão e uma seca de 3 a 5 meses, com vegetação semidecídua, como o cerrado brasileiro.
  • Florestas tropicais secas, a estação sem chuva pode durar até oito meses, dando origem a savanas africanas e a caatinga, por exemplo.
  • Florestas de altitude, que surgem em altitude (entre 1000 e 4000 m) que variam entre vegetação úmida e bosques de árvores mais baixas, adaptadas ao frio.
  • Manguezais, se desenvolvem em regiões costeiras alagadas pelas marés; apesar de baixa diversidade vegetal -quando comparado às florestas tropicais úmidas, são vitais para os animais e funcionam como ecossistemas de transição entre terra e mar.

Essa diferença entre as florestais tropicais, e as demais florestas, como as temperadas, por exemplo, mostra o porquê são importantes. A diversidade das florestas tropicais determina seus serviços ecossistêmicos, mostrando assim seus benefícios e funções.

Ficou curioso? Continue lendo para compreender melhor o mundo das florestas tropicais.

Serviços ecossistêmicos das florestas

As florestas tropicais são conhecidas por promoverem diversos serviços ecossistêmicos, mas o que são esses serviços?

Muitas vezes, ‘serviços ecossistêmicos’ é interpretado como o que a natureza tem a oferecer aos seres humanos, como se fosse sua única função. Estudado utilizando viés econômico, como oferta, demanda e valor financeiro. Mas não se trata apenas disso.

A relação entre natureza e humanidade não pode ser encarada apenas como um produto, é uma interdependência. Os ecossistemas dependem das atividades humanas – ou da redução delas, para existirem. Ou seja, o ser humano não está acima do ecossistema, mas sim, faz parte dele.

O Painel Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPEBES) define serviços ecossistêmicos como “a contribuição da natureza para as pessoas”. Sendo assim, alguns benefícios providos pelas florestas são:

  • Regulação climática: As árvores atuam como sumidouros de carbono, essenciais para o equilíbrio atmosférico.
  • Biodiversidade: Cobrem 8% da superfície terrestre, mas abrigam mais da metade das espécies. Essa riqueza biológica é vital para a saúde dos ecossistemas.
  • Ciclo da água: Influenciam padrões de chuva e umidade regional. A transpiração das árvores contribui para a formação de nuvens.
  • Formação do solo: Protegem o solo da erosão e acumulam matéria orgânica. Isso sustenta a fertilidade e a produtividade.
  • Recursos naturais: Fornecem alimentos, medicamentos e materiais para comunidades.

Os riscos da sua degradação

A degradação florestal traz consequências graves e de longo alcance. O desmatamento libera grandes quantidades de carbono, acelerando as mudanças climáticas e reduzindo a capacidade das florestas de absorver CO₂. Com menos árvores, há perda de regulação térmica e hídrica, o que altera o equilíbrio atmosférico e intensifica eventos climáticos extremos.

“As florestas plantadas hoje estocam entre 2 e 2,5 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, praticamente o que o Brasil inteiro emite em um ano”

Prof. Rodrigo Hakamada
Pesquisador no CCARBON/USP

Além disso, a biodiversidade sofre colapsos com a extinção de espécies, comprometendo cadeias ecológicas inteiras. A destruição de ecossistemas tropicais também ameaça a segurança alimentar e hídrica, pois afeta a disponibilidade de recursos essenciais.

Outro impacto relevante é a dificuldade de regeneração natural em áreas degradadas, o que perpetua a perda de serviços ecossistêmicos. Nesse contexto, soluções baseadas em florestas plantadas e sistemas de manejo sustentável têm papel central.

Estratégias para restaurar e manter áreas florestais

A restauração florestal é fundamental para reverter os danos causados pela degradação. Uma das estratégias mais eficazes e de baixo custo é a regeneração natural, que deve ser fortalecida por meio de programas de restauração amplos e bem financiados.

Políticas públicas consistentes são essenciais para garantir a recuperação de ecossistemas e, ao mesmo tempo, integrar essas ações às atividades produtivas das comunidades locais.

O manejo sustentável de árvores e a adoção de sistemas agroflorestais demonstram que é possível unir produção agrícola e conservação ambiental. Esses modelos, aliados à pesquisa em florestas multifuncionais, oferecem não apenas serviços ecossistêmicos, mas também oportunidades de renda que estimulam à preservação das árvores.

“Ao falarmos de restauração ou reflorestamento em larga escala, é importante entender que essa não é uma atividade que compete com a agricultura. Pelo contrário, a proposta é que esses processos criem sinergias com a produção agrícola e gerem benefícios mútuos — tanto produtivos quanto ambientais.”

Prof. Pedro H. S. Brancalion
Diretor de Inovação e Pesquisador no CCARBON/USP

Assim, restaurar florestas não é apenas uma medida de conservação, mas uma estratégia essencial de mitigação climática.

Referências

Brandon, K. (2014). Ecosystem services from tropical forests: review of current science. Center for Global Development Working Paper, (380). https://dx.doi.org/10.2139/ssrn.2622749

Chazdon, R. L., Blüthgen, N., Brancalion, P. H., Heinrich, V., & Bongers, F. (2025). Drivers and benefits of natural regeneration in tropical forests. Nature Reviews Biodiversity, 1-17. https://doi.org/10.1038/s44358-025-00043-y

Gould, W. A., Álvarez-Berríos, N. L., Parrotta, J. A., & McGinley, K. (2024). Climate change and tropical forests. In Future forests (pp. 203-219). Elsevier. https://doi.org/10.1016/B978-0-323-90430-8.00012-5

Rainforest Concern. (n.d.). About tropical rainforest. Retrieved Month Day, Year, from https://www.rainforestconcern.org/forest-facts/about-tropical-rainforest#:~:text=Tropical%20rainforests%20cover%20around%208,species%20of%20animals%20and%20plants


Como citar este artigo: