5 fatos sobre mudanças climáticas que você precisa saber

Como podemos diferenciar a variação natural do clima das verdadeiras mudanças climáticas? Quais são as principais causas? E existe solução?

Com debates acalorados, o início dos anos 70 ficou marcado por trazer à tona o assunto ‘mudanças climáticas’. O tema, que antes era exclusivo dos círculos científicos, caiu na boca dos jornalistas. A mudança foi impulsionada por transformações na sociedade e na política global, isso incluía a crescente força do movimento ambientalista e as viagens supersônicas. Além disso, uma série de problemas agrícolas e aumentos nos preços dos alimentos exigiu explicações urgentes das autoridades em todo o mundo.

Aumentando a visibilidade, as pesquisas em mudanças climáticas receberam financiamento, o que culminou na primeira Conferência Mundial do Clima, em 1979. O evento influenciou no desenrolar das políticas ambientais da nova década, os anos 80 trouxeram uma nova fase para as mudanças climáticas. A criação do IPCC em 1988, por exemplo, marcou um momento crucial no desenvolvimento da divulgação científica em mudanças climáticas.

A partir desse momento, diversas conferências e acordos foram realizados com o foco em mudanças climáticas (Conferência das Partes, por exemplo). No entanto, esses eventos costumam usar uma linguagem técnica voltada a especialistas e tomadores de decisão, o que deixa o público geral de fora. Isso faz com que muitas pessoas ainda não entendam o que são as mudanças climáticas, se realmente estão acontecendo e como impactam nossas vidas.

Quer descobrir de forma clara o que está acontecendo com o nosso planeta? Continue lendo e entenda tudo sobre esse fenômeno!

1. Clima é diferente de tempo

Os termos ‘clima’ e ‘tempo’ são comumente confundidos. Ambos levam em conta fatores como temperatura, umidade, precipitação, entre outros. Porém, os conceitos são diferentes.

Enquanto tempo é algo mais efêmero — diário ou até modificado a cada hora que passa —, o clima é uma constante. Quando falamos “Hoje está frio”, nos referimos ao tempo, ou seja, o que estamos sentindo naquele momento. Já quando falamos “Piracicaba é quente”, é do clima que estamos falando.

Para um clima ser determinado é necessário o monitoramento de diversos fatores e observar uma repetição de comportamento por, no mínimo, 30 anos. Esses fatores são: precipitação, temperatura, pressão atmosférica, ventos, umidade do ar, radiação solar e insolação.

Ou seja, o clima de um local é definido apenas após ser observado um padrão nos fatores por muito tempo. Com isso, entende-se que, a modificação do clima também só se concretiza após a passagem desse longo tempo com o diferente padrão. Ou seja, as mudanças climáticas não aconteceram agora, não foi “do dia para a noite”.

A nomeação de que as mudanças climáticas estão acontecendo ocorreu por um acompanhamento da variabilidade dos fatores por mais de 30 anos. Cientistas observaram as alterações suficientes na temperatura e precipitação global para chegarem a tal conclusão.

2. Aquecimento global é a causa das mudanças climáticas, não consequência

Outra confusão de termos que acontece bastante é a dúvida entre o que são as mudanças climáticas e o que é o aquecimento global. São a mesma coisa? Um é pior que o outro? Na verdade, as mudanças climáticas são consequência do aquecimento global.

O aquecimento global é o aumento da temperatura média da Terra causado pelo acúmulo excessivo de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera. O efeito estufa, por sua vez, é um fenômeno natural e essencial para a vida, pois mantém a temperatura média global em torno de 14°C. Sem ele, o planeta seria frio e inóspito, com temperaturas próximas a -18°C.

No entanto, a intensificação das emissões por atividades humanas — como a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento — tem aumentado a concentração desses gases. Os principais gases emitidos são o dióxido de carbono (CO₂), o metano (CH₄) e o óxido nitroso (N₂O), que retêm mais calor e provocam o aquecimento global.

Esse aquecimento desequilibra o sistema climático, causando as chamadas mudanças climáticas. Entre as consequências estão secas e enchentes mais intensas, derretimento das geleiras, elevação do nível do mar e perda de biodiversidade.

“O aumento da energia aprisionada afeta a temperatura que a gente mede no termômetro. Mas ele também afeta os ventos, ele também afeta o regime de chuvas e tem um efeito geral no estado da atmosfera.”

Prof. Fábio Marin, docente da ESALQ/USP e pesquisador do CCARBON.

De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a temperatura média global já aumentou cerca de 1,5°C desde a era pré-industrial. Ultrapassar o limite de 2°C pode levar o planeta a um ponto de não retorno, no qual os impactos se tornam irreversíveis, como a destruição de ecossistemas e o colapso de sistemas agrícolas.

3. No Brasil, 74% das emissões advêm da agricultura e mudança do uso da terra

Segundo o SEEG – Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa, 74% das emissões brasileiras estão ligadas à agropecuária e à mudança no uso da terra. O histórico mostra que o país atingiu um pico de emissões entre 2003 e 2005. O período é marcado pela expansão da fronteira agrícola e da pecuária extensiva, que avançou rapidamente sobre áreas de vegetação nativa.

Um estudo sobre o avanço agrícola no Brasil mostrou que esse crescimento foi impulsionado pela política cambial de 1999 e pela alta dos preços internacionais a partir de 2002. Entre as safras de 2001/02 e 2003/04, a área plantada com grãos aumentou 22,8%. Diferentemente da década anterior, esse aumento foi movido mais pela expansão territorial do que pelo ganho de produtividade.

Essa fase de crescimento acelerado coincidiu com o aumento das emissões nacionais. Após uma queda entre 2005 e 2012, resultado de políticas de controle do desmatamento, como o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm), os índices voltaram a subir nos últimos anos. Isso refletiu o enfraquecimento da fiscalização ambiental e o avanço contínuo das áreas de produção.

Imagem: Emissões de CO2 no Brasil, por setor. Fonte: Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG).

Dentro do setor agropecuário, a cadeia da carne bovina é a principal responsável pelas emissões — cerca de 1,4 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente por ano. No entanto, esse mesmo setor tem enorme potencial de mitigação. Práticas como integração lavoura-pecuária-floresta, recuperação de pastagens degradadas, melhorias genéticas e dieta otimizada para o gado podem reduzir significativamente as emissões de metano. Além de, também, aumentar o sequestro de carbono no solo, tornando a pecuária mais produtiva e sustentável.

4. Os maiores emissores também são os mais afetados

A FAO (Food and Agriculture Organization) prevê que, para acompanhar uma população mundial que deve atingir 10 bilhões de pessoas até 2050, a produção de alimentos terá que aumentar em 50%.

No entanto, não podemos mais recorrer à expansão de áreas ou à destruição de ecossistemas; o limite de tolerância ambiental foi atingido. O grande mistério, portanto, é: como produzir essa quantidade massiva de alimentos, emitindo menos gases e driblando as mudanças climáticas?

O planejamento tradicional do produtor rural é afetado devido à recorrência de eventos climáticos extremos. Os períodos de chuva, antes esperados e recorrentes, agora se tornam incertos, e a seca atinge os momentos mais críticos do cultivo.

Essa mudança repentina é muito simples de ser observada. Seja em picos de temperatura acima de 40°C, que chegam até mesmo ao Sul do Brasil, ou em geadas em regiões tradicionalmente quentes. Projeções, como a elaborada pela FAPESP, indicam que a temperatura média pode aumentar em até 5°C em alguns biomas, e a chuva reduzir em até 50%.

Imagem: Projeções climáticas até 2100. Fonte: Revista Fapesp.

As mudanças climáticas também agem como um amplificador das dificuldades já existentes no campo. Um artigo publicado na Science revelou que a crise climática multiplica os danos ambientais na agricultura em um perigoso ciclo vicioso.

O estresse climático reduz a produtividade, levando à expansão de terras para manter a oferta. Isso gera mais desmatamento, perda de biodiversidade e, consequentemente, mais emissões de GEE.

O aquecimento e as chuvas extremas aceleram a decomposição e a erosão do solo, que pode aumentar em 66% até 2070, exigindo mais fertilizantes e energia. A ineficácia de insumos devido ao clima força o aumento de fertilizantes, pesticidas e o uso de água subterrânea, elevando a pegada de carbono da atividade.

Além disso, o clima intensifica a ameaça de pragas. O aumento da temperatura acelera drasticamente o ciclo de vida de insetos e patógenos, enquanto o estresse hídrico enfraquece a defesa natural das plantas. Essa pressão exige o uso mais frequente de defensivos, o que, por sua vez, acelera a resistência das pragas, prejudicando a produção agrícola.

Diante desse cenário complexo, a única solução viável está na adaptação. É necessário investir em tecnologias e no manejo sustentável e resiliente.

5. Redução da emissão não basta, temos que sequestrar carbono

A urgência da crise climática exige que o mundo faça mais do que apenas diminuir as emissões de gases de efeito estufa, precisamos do sequestro desses gases.

“O nosso setor de agricultura, pecuária e silvicultura, além de reduzir as emissões, ainda tem uma outra possibilidade, e vem fazendo isso, que é não só reduzir as emissões, mas remover parte do excesso desse gás para o ambiente da planta, para o solo, que é o chamado de sequestro de carbono.”

Prof. Carlos Eduardo Pellegrino Cerri
docente da ESALQ/USP e diretor do CCARBON.

Na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), o tema da agricultura como potencial mitigador das mudanças climáticas foi debatido. No Brasil, o Sistema Plantio Direto (SPD), por exemplo, já é uma tecnologia consolidada que prova o potencial dessa abordagem.

Uma avaliação de fazendas revelou que 27% recuperaram o carbono do solo entre 80% e 100% em menos de uma geração. Esse dado reforça que é difícil que outro setor consiga o que a agricultura pode fazer na fixação de carbono.

Portanto, para alavancar esse potencial de mitigação, a pesquisa científica é fundamental. Diversas técnicas de manejo têm sido estudadas, provadas eficientes e publicadas por nosso centro. Alguns exemplos são:

É essencial que o produtor rural entenda a necessidade dessas mudanças e adote inovações baseadas em ciência. A publicação e divulgação desses resultados são a chave para que as técnicas de manejo mais sustentáveis e eficazes se tornem rotina.

O primeiro passo para a resolução da crise climática é entender o panorama completo: distinguir a variação natural do clima das mudanças climáticas induzidas pelo homem. A compreensão da situação que nos encontramos é essencial para tomarmos uma atitude.

Referências

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