Manguezais: Soluções Baseadas na Natureza Contra a Crise Climática

Manguezais são sumidouros de carbono vitais, mas sofrem degradação. Entenda sua importância, riscos climáticos e desafios da restauração no Brasil.

No dia 26 de julho é comemorado o Dia Internacional da Conservação dos Manguezais. Em 2015, a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, adotou a data para conscientizar a população sobre a importância dos manguezais.

A celebração inclui desde a conservação do ecossistema até a recuperação das áreas de mangue degradadas. Afinal, os manguezais prestam serviços ecossistêmicos essenciais para a natureza. E, além de serem ecossistemas complexos, com vegetação e fauna específicos, também atuam como sumidouros de carbono.

Mangue ou manguezal? Entenda a diferença

Enquanto o termo “mangue” se refere às plantas adaptadas a ambientes salinos e alagados, “manguezal” designa o ecossistema como um todo, incluindo solo, fauna, flora e água. Essa distinção ajuda a compreender a complexidade ecológica envolvida na sua conservação.

O que são manguezais e qual sua importância?

Os manguezais são ecossistemas costeiros ricos em biodiversidade e fundamentais no combate às mudanças climáticas. Como grandes sumidouros de carbono, são capazes de armazenar matéria orgânica em seus solos por milhares de anos. No entanto, a mudança de uso e degradação dessas áreas pode transformar esse carbono contido na matéria orgânica e liberá-lo na forma de gases de efeito estufa, como CO₂ e metano, agravando o aquecimento global.

Localizados nas zonas úmidas entre a terra e o mar, os manguezais são compostos por vegetações tolerantes ao sal e solos alagadiços. Eles oferecem proteção costeira, sustentam a biodiversidade e sequestram grandes quantidades do chamado ‘blue carbon’, sendo considerados um dos ecossistemas mais produtivos do planeta.

A capacidade de armazenamento por área de carbono em manguezais é de 4 a 6 vezes maior que o estocado em as florestas tropicais, boreais e temperadas. Globalmente, a maior parte desse carbono (85%) é armazenado nos solos dos manguezais, onde permanece por séculos – desde que o ecossistema não seja perturbado.

Manguezais no Brasil e no mundo

Globalmente, os manguezais cobrem entre 13,8 e 15,2 milhões de hectares. No entanto, o desmatamento reduz essas áreas em cerca de 2% ao ano. Segundo a UNESCO, cerca de 67% dos manguezais globais foram perdidos ou degradados nas últimas décadas.

O Brasil possui a segunda maior área de manguezais do mundo, abrangendo cerca de 7% da extensão global — aproximadamente 1 milhão de hectares — e concentrando cerca de 8,5% dos estoques globais de carbono em manguezais, considerando tanto a biomassa quanto os solos. Proteger esses ecossistemas é vital tanto para a biodiversidade como para o clima. Alguns dos serviços ecossistêmicos prestados pelos manguezais são:

  • Protegem as costas contra erosão e tempestades;
  • Funcionam como berçários de peixes, crustáceos e moluscos;
  • Purificam a água e filtram poluentes;
  • Estocam grandes quantidades de carbono;
  • Garantem renda e segurança alimentar para comunidades costeiras;

 

Degradação e emissão de gases de efeito estufa

Manguezais acumulam carbono há milhares de anos. Quando são desmatados ou degradados, o carbono armazenado nos solos é exposto ao oxigênio. Isso acelera a decomposição microbiana, resultando na emissão de dióxido de carbono (CO₂) e metano (CH₄).

O metano é liberado em menor quantidade, entretanto é mais perigoso. Segundo o World Resources Institute (WRI), ele é 86 vezes mais potente que o CO₂ para o aquecimento global num período de 20 anos.

Por que a restauração de manguezais é desafiadora no Brasil?

Apesar dos esforços, muitos projetos de restauração de manguezais no Brasil não obtiveram sucesso. Isso ocorre porque a maioria não considera os tensores ambientais, que são a poluição, mudanças no fluxo de água e ocupações urbanas irregulares.

Para restaurar eficazmente manguezais, é necessário adotar práticas baseadas na ciência, respeitando a dinâmica natural dos ecossistemas e envolvendo as comunidades locais no processo.

O papel do Brasil na proteção do carbono azul

O Brasil tem um papel estratégico na conservação do carbono azul, graças à extensão e à diversidade de seus manguezais.

Conservar os manguezais é uma das Soluções Baseadas na Natureza (SBN) mais eficazes contra a mudança climática e a perda de biodiversidade global.

Os manguezais são ecossistemas essenciais para o clima, a biodiversidade e as comunidades humanas. São fontes de vida e barreiras naturais contra o colapso climático. No entanto, sua existência está ameaçada por pressões antrópicas e políticas públicas frágeis.

Com o objetivo de fortalecer sua preservação, pesquisadores do CCARBON/USP estão empenhados em uma iniciativa que monitora manguezais no litoral paulista. Em parceria com a Fundação Florestal, são estudados estoques de carbono e a presença de elementos potencialmente tóxicos nesses ecossistemas.  A iniciativa representa um avanço no monitoramento ambiental e integra o Programa de Gestão Integrada de Manguezais da Fundação Florestal, instituído pela Portaria Normativa FF 445/2024.

Preservar e restaurar esses ambientes é urgente. A conservação dos manguezais é uma responsabilidade coletiva, local e global. Investir em educação ambiental, pesquisa científica e manejo sustentável é o caminho para garantir que esses ecossistemas continuem cumprindo seu papel vital para o planeta.

Referências:

Blue Carbon Initiative. (2023). Mitigating climate change through coastal conservation. https://www.thebluecarboninitiative.org/

Giri, C., Ochieng, E., Tieszen, L. L., Zhu, Z., Singh, A., Loveland, T., … & Duke, N. (2011). Status and distribution of mangrove forests of the world using earth observation satellite data. Global ecology and biogeography20(1), 154-159. https://doi.org/10.1111/j.1466-8238.2010.00584.x

Goldstein, A., Turner, W. R., Spawn, S. A., Anderson-Teixeira, K. J., Cook-Patton, S., Fargione, J., … & Hole, D. G. (2020). Protecting irrecoverable carbon in Earth’s ecosystems. Nature Climate Change10(4), 287-295. https://doi.org/10.1038/s41558-020-0738-8

Instituto Socioambiental & ICMBio. (2018). Atlas dos manguezais do Brasil (176 p.). Brasília: Instituto Socioambiental.  https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/17L00001.pdf

National Geographic Brasil. (2022). O que são os manguezais e por que é importante conservá-los. https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2022/07/o-que-sao-os-manguezais-e-por-que-e-importante-conserva-los

ONU Brasil. (2023, 26 julho). 67% dos manguezais da Terra foram perdidos ou degradados, alerta PNUMA. https://brasil.un.org/pt-br/130784-67-dos-manguezais-da-terra-foram-perdidos-ou-degradados-alerta-pnuma

Rogers, K., Kelleway, J. J., Saintilan, N., Megonigal, J. P., Adams, J. B., Holmquist, J. R., … & Woodroffe, C. D. (2019). Wetland carbon storage controlled by millennial-scale variation in relative sea-level rise. Nature567(7746), 91-95. https://doi.org/10.1038/s41586-019-0951-7

Ross, K., Waskow, D., & Ge, M. (2021). Como as emissões de metano contribuem com mudanças climáticas. WRI Brasil. https://www.wribrasil.org.br/noticias/como-emissoes-de-metano-contribuem-com-mudancas-climaticas

Rovai, A. S., Twilley, R. R., Worthington, T. A., & Riul, P. (2022). Brazilian mangroves: blue carbon hotspots of national and global relevance to natural climate solutions. Frontiers in Forests and Global Change4, 787533. https://doi.org/10.3389/ffgc.2021.787533


Autoria: Mariana Pezzatte Pollo, CCARBON/USP

POLLO, M. P. Dia Internacional de Conservação dos Manguezais. CCARBON/USP, 2025. Available at: <LINK>. Acesso em: DATA