Por Danielle Denny* e Jean Ometto**
Dia 9/12/2025 foi o lançamento do tão esperado do Global Environment Outlook (GEO7) , a sétima edição da principal avaliação ambiental global, coordenada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). O GEO7 deixa claro que o mundo está diante de uma encruzilhada: ou muda rapidamente a forma como produz energia, alimentos e materiais, ou os custos da inação – econômicos, sociais e ambientais – serão muitas vezes maiores do que os investimentos necessários para agir agora. A principal mensagem do GEO7 é que não se trata apenas de um problema ambiental, mas também de segurança, energia, alimentos e desenvolvimento econômico.
As três crises planetárias – mudanças climáticas, poluição/resíduos, perda de biodiversidade/degradação – são interligadas e já estão minando o bem-estar humano. Está subestimado o efeito sistêmico que um fator pode gerar, desencadeando outros . Mesmo que o mundo consiga ficar dentro das metas (Acordo de Paris, Kunming-Montreal e Neutralidade de Degradação), por exemplo, vários pontos de não retorno devem ser ultrapassados; por isso, a recomendação é manter os níveis de impacto “o mais baixo possível”. Se as tendências atuais continuarem, a probabilidade de cruzar múltiplos pontos de inflexão nas próximas décadas é alta.
A boa notícia é que a modelagem de cenários do GEO7 indica que ainda é possível cumprir os compromissos e metas ambientais e sociais, mas isso exige uma transformação sem precedentes, integrada, rápida, radical e inovadora dos sistemas interdependentes e conectados: economia, finanças, energia, alimentos e materiais/resíduos. A transição passa por uma combinação de mudanças tecnológicas, comportamentais e de governança, apoiada por uma abordagem de “governo como um todo” – envolvendo ministérios não apenas do meio ambiente, mas também de energia, agricultura, finanças – e de “toda a sociedade”, incluindo setor privado e sistema financeiro.
Os números são contundentes, é preciso melhorar a eficiência em tudo – do uso de energia e da terra, implementar a circularidade no consumo de materiais – e mudar estilos de vida. Essa transformação reduzirá emissões e pressões ambientais ao mesmo tempo em que gerará benefícios macroeconômicos crescentes a partir de 2050. Fica claro que o custo de agir é menor do que o custo de não agir: até 2070, a transformação poderia gerar benefícios anuais da ordem de centenas de bilhões de dólares, tirar 150 milhões de pessoas da pobreza extrema e evitar 9 milhões de mortes prematuras até 2050, sendo 1,2 milhão até 2030 apenas com a redução da poluição do ar, imagine se levarmos em conta os demais benefícios ecossistêmicos.
Outro ponto central é a precificação da natureza na economia. Nosso modelo econômico tem sido ineficaz para a precificação de externalidades positivas e para a remuneração dos benefícios ecossistêmicos, conduzindo a sociedade à produção linear, ao uso de hidrocarbonetos, ao aumento das desigualdades e à degradação. Os sistemas econômicos e financeiros devem evoluir, superando o produto interno bruto – PIB – como única medida de progresso.
Pelo menos metade do PIB mundial depende diretamente dos serviços dos ecossistemas. O GEO7 defende a transição para sistemas circulares, com novos modelos de produção e até modelos alternativos de PIB que reconheçam os limites ecológicos. Tal implicaria a criação de sistemas integrados de contabilidade socioeconómica e ambiental, por exemplo, com base nas abordagens já existentes de contabilidade do capital natural, de modo a refletir uma noção mais ampla de progresso e a apoiar a tomada de decisões políticas. O Plano de Investimento para uma Europa Sustentável da UE e os orçamentos de bem-estar da Nova Zelândia são exemplos de inovações que demonstram como as reformas fiscais podem alinhar as economias com os objetivos ambientais.
O GEO7 mostra os fatos, mas não pode conduzir governos e sociedade rumo ao que é orientado; para transformar conhecimento em ação, será preciso alinhar na prática economia e finanças – inclusive atribuir valor econômico à natureza – e fazer o setor privado trabalhar em conjunto com os governos. A dimensão política é fundamental num contexto complexo: conflitos geopolíticos, desconfiança no multilateralismo e disputas em torno de temas sensíveis que dificultam respostas coordenadas. As ferramentas políticas atuais não estão preparadas para lidar com as sinergias entre crises – daí a necessidade de inventar novos instrumentos e arranjos de governança complementares e participativos.
O GEO7 contou com a contribuição específica dos povos indígenas e comunidades locais – IPLC. Incluindo suas visões de mundo e sua expertise nos tópicos de economia sustentável, social e solidária. Foi identificada a necessidade de fortalecimento da organização política indígena; revitalização e transmissão intergeracional de conhecimentos; proteção jurídica de seus territórios e modos de vida; e uma transição energética responsável e justa. Assim, os caminhos de solução transformadores são possíveis se houver ações articuladas em cinco frentes: economia e finanças, materiais e resíduos, energia, alimentos e meio ambiente, com participação da sociedade.
As respostas de política precisam ser adaptadas a cada país e região, respeitando as realidades econômicas e ecológicas. As prioridades podem ser semelhantes, mas as soluções não podem ser simplesmente importadas . Para os países desenvolvidos, cumprir promessas de financiamento, realizar transferência de tecnologia e reduzir disparidades socioeconômicas regionais é algo crítico.
No que se refere à América Latina e ao Caribe, o GEO7 resume o desafio da seguinte forma: se as tendências atuais se mantiverem, a região enfrentará uma degradação ambiental irreversível e riscos socioeconômicos cumulativos até meados do século. Por outro lado, reformas integradas nos sistemas econômicos, financeiros e de governança, aliadas a estratégias de economia circular, eletrificação inteligente, energias renováveis descentralizadas e sistemas alimentares curtos baseados na sistemas de produção integrados, aproveitando a gestão dos IPLC e das comunidades tradicionais, podem alinhar a transformação económica, a sustentabilidade ambiental e a inclusão social, gerando um novo modelo de desenvolvimento socioambiental.
A principal mensagem do GEO7 é que os conflitos e as crises, que anteriormente eram tratados em separado, agora se cruzam. Ou os governos e a sociedade conectam essas agendas e aproveitam a oportunidade com soluções baseadas na natureza, fazendo da transição energética e da transformação no uso de materiais o novo centro da economia, ou os pontos de não retorno climáticos e ecológicos farão essa ligação da pior forma possível.
*Denny Thame é pesquisadora do Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI) e do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON/USP) na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo.
**Jean Ometto é Pesquisador Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (INPE), Chefe da Divisão de Projetos Estratégicos (DIPE/INPE) e Vice Coordenador da REde Brasileira de Pesquisas em Mudanças Climáticas (Rede Clima)
Ambos são coautores do GEO7.
Bibliografia
5UNEP, GEO7 – Global Environment Outlook 7.
6 UNFCCC, What is the Triple Planetary Crisis? | UNFCCC.
9 KMGBF, Kunming-Montreal Global Framework.