Uma abordagem que alinha a ação humana à capacidade de auto-organização dos ecossistemas e utiliza a inteligência artificial para apoiar decisões na restauração florestal
A restauração de florestas em larga escala precisa ir além da ideia de simplesmente reconstruir ecossistemas por meio do plantio de árvores. É o que defendem os pesquisadores Pedro H. S. Brancalion, do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical da Universidade de São Paulo (USP), e Marcelo P. L. Medeiros (Salata Institute for Climate and Sustainability, Harvard University), em artigo publicado na revista Trends in Ecology & Evolution, uma das principais publicações científicas internacionais nas áreas de ecologia e evolução.
Intitulado “Human, natural, and artificial intelligence in forest restoration”, o artigo foi disponibilizado online em 7 de setembro de 2026 pela Cell Press. O trabalho discute como a integração entre conhecimento humano, processos naturais e inteligência artificial (IA) pode contribuir para enfrentar um dos grandes desafios contemporâneos: restaurar florestas em escala suficiente para responder às crises climática, de perda de biodiversidade e de degradação ambiental.
A Trends in Ecology & Evolution é um periódico de referência internacional em ecologia e evolução. A revista apresenta fator de impacto de 17,3 e classificação Q1, ocupando posição de destaque entre os periódicos científicos de sua área.
Uma floresta não é apenas um conjunto de árvores
O ponto de partida do artigo é uma crítica a uma concepção ainda comum de restauração: a ideia de que seria possível “reconstruir” uma floresta da mesma forma que se constrói uma infraestrutura, selecionando componentes e reunindo-os para produzir um sistema previamente planejado.
Embora o plantio de árvores seja uma ferramenta importante em determinadas situações, os autores ressaltam que uma floresta é muito mais do que a soma de suas árvores. Sua biodiversidade, estrutura e funcionamento resultam de interações complexas entre plantas, animais, microrganismos, solo, água, clima e processos ecológicos que se desenvolvem ao longo do tempo.
“Restaurar florestas não é simplesmente plantar árvores, mas criar condições para que os ecossistemas recuperem sua complexidade. A inteligência artificial pode ampliar nossa capacidade de compreender essa complexidade, mas não substitui os processos naturais nem elimina os limites da ação humana.”
Pedro H. S. Brancalion, pesquisador do CCARBON/USP e coautor do estudo
Essa complexidade também ajuda a explicar por que a regeneração natural pode desempenhar um papel fundamental na recuperação dos ecossistemas. Em diversas situações, a recuperação de florestas nativas ocorre por meio da sucessão ecológica, na qual comunidades se reorganizam e desenvolvem gradualmente sua complexidade sem que todas as etapas sejam diretamente controladas pelos seres humanos.
Por isso, os autores propõem uma mudança de perspectiva: em vez de tentar controlar e reconstruir a natureza, a restauração deve buscar criar as condições para que os próprios processos ecológicos conduzam a recuperação dos ecossistemas.
Três formas de inteligência
É nesse contexto que o artigo propõe a integração de três formas de inteligência: humana, natural e artificial.
A inteligência humana é responsável por definir objetivos, mobilizar conhecimentos e recursos, tomar decisões e criar as condições necessárias para que a recuperação ecológica aconteça.
A inteligência natural corresponde à capacidade dos próprios ecossistemas de se organizar, adaptar e desenvolver complexidade por meio de processos como sucessão ecológica e interações entre organismos e ambiente.
Já a inteligência artificial pode ampliar a capacidade humana de compreender e lidar com essa complexidade. Tecnologias de aprendizado de máquina podem, por exemplo, integrar grandes volumes de dados provenientes de satélites, drones, sensores, monitoramento acústico e DNA ambiental para identificar padrões e apoiar decisões sobre onde, quando e como realizar intervenções.
Em vez de substituir a tomada de decisão humana, a IA poderia contribuir para tornar a restauração mais precisa, adaptativa e capaz de considerar a heterogeneidade das paisagens.
Da lógica do controle à lógica da adaptação
O uso de inteligência artificial, entretanto, também envolve riscos. Os autores alertam que sistemas de IA não são neutros: seus resultados dependem dos dados utilizados para treiná-los, dos algoritmos empregados e dos valores e interesses incorporados aos processos de decisão.
Uma aplicação inadequada poderia, por exemplo, reforçar a tendência de priorizar o plantio de árvores em detrimento da regeneração natural ou favorecer espécies para as quais existe maior disponibilidade de dados, deixando de considerar organismos e interações ecológicas ainda pouco estudados.
A adoção dessas tecnologias também pode produzir impactos sociais. Embora a automação possa aumentar a eficiência das atividades de restauração, ela também pode alterar oportunidades de trabalho e geração de renda em comunidades locais. Por isso, os autores defendem que decisões sobre o uso da IA devem considerar não apenas ganhos de eficiência, mas também bem-estar humano, meios de vida locais e prioridades sociais.
Restaurar é permitir que a natureza se reconstrua
A principal mensagem do artigo é que nem mesmo as tecnologias mais avançadas podem reproduzir a complexidade de uma floresta nativa.
Para os autores, o desafio da restauração em larga escala não é simplesmente descobrir como plantar mais espécies de árvores, mais rapidamente e em áreas maiores. O desafio é alinhar as ações humanas às capacidades de auto-organização dos ecossistemas, utilizando tecnologias como a inteligência artificial para compreender melhor essa complexidade e orientar intervenções quando elas forem necessárias.
Essa perspectiva propõe uma mudança importante na maneira de pensar a restauração: de uma abordagem baseada na tentativa de controlar e reconstruir ecossistemas para uma abordagem baseada em facilitar e orientar sua recuperação.
Ao integrar inteligência humana para iniciar e conduzir os processos de restauração, inteligência natural para gerar complexidade ecológica e inteligência artificial para apoiar decisões e o manejo adaptativo, a restauração florestal pode avançar em direção a um modelo mais sensível às particularidades de cada paisagem e aos limites da capacidade humana de controlar a natureza.
O artigo “Human, natural, and artificial intelligence in forest restoration” está disponível online na Trends in Ecology & Evolution.
Referência:
Brancalion, P. H. S.; Medeiros, M. P. L. Human, natural, and artificial intelligence in forest restoration. Trends in Ecology & Evolution. 2026. DOI: 10.1016/j.tree.2026.08.008