Descoberta de manguezais sobre turfeiras na Amazônia revela nova ameaça climática oculta

Uma nova pesquisa liderada por cientistas brasileiros, realizado por uma equipe multidisciplinar envolvendo pesquisadores da UFES, USP e UFPA, com apoio da National Geographic Society, CCARBON/USP, FAPES e CNPq, revelou que os manguezais da costa amazônica escondem um segredo valioso e vulnerável: vastos depósitos de turfa (matéria orgânica acumulada) sob suas raízes. A descoberta, publicada hoje na revista PeerJ, indica que esses ecossistemas armazenam muito mais carbono do que se imaginava, mas estão sendo rapidamente destruídos pela erosão costeira, liberando gases de efeito estufa em níveis alarmantes.

O estudo, realizado na Ilha de Maracá, no Amapá, identificou pela primeira vez que possivelmente cerca de 46% dos manguezais do norte da Amazônia brasileira estão sobrepostos a áreas de turfeiras. Essa combinação cria um “super-estoque” de carbono, mas também uma fragilidade: quando o mar avança e erode a costa, esse carbono milenar é exposto e lançado na atmosfera.

O Carbono Oculto sob a Lama

Diferente dos manguezais comuns, que crescem sobre solos minerais, os manguezais da Amazônia estão sobrepostos a camadas de turfa de idade milenar que podem ter metros de profundidade. “Descobrimos que essas camadas orgânicas possuem uma concentração de carbono até 25 vezes maior que os solos ao redor”, explica o professor Angelo Bernardino, pesquisador da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e coordenador do estudo.

A pesquisa quantificou que a erosão nessas áreas remove cerca de 72% do carbono estocado no solo. Isso significa que a perda natural de manguezais, impulsionada pela subida do nível do mar e mudanças nas correntes marítimas, está gerando uma emissão de gases de efeito estufa que não estava sendo contabilizada nos modelos climáticos atuais. O conteúdo de carbono orgânico das camadas de turfa sob os manguezais chega a 46%, comparado a 1-2% de solos típicos de florestas de manguezais da costa Amazônica. Os estoques de carbono nos solos até 2 metros de profundidade em manguezais sobre turfeiras são de 600 toneladas por hectare, cerca de 2 vezes maior do que encontrado em florestas de manguezais da Amazônia (250 a 360 ton/ha).

Implicações para o Clima Global

A descoberta tem impacto direto nas estratégias de conservação do Brasil. Com quase 367 mil hectares de manguezais sobre turfeiras na região amazônica, a proteção dessas áreas torna-se crítica para que o país atinja suas metas de redução de emissões.

“Reconhecer esses manguezais como ecossistemas distintos é fundamental para uma contabilidade de carbono precisa”, afirma Bernardino. “A erosão costeira na Amazônia é hoje um dos principais fatores de degradação desses estoques, e precisamos de estratégias urgentes para monitorar e mitigar essas perdas.”

O estudo reforça que o “carbono azul” (armazenado em ecossistemas marinhos) da Amazônia é um dos maiores tesouros climáticos do planeta, mas que sua permanência depende do equilíbrio delicado entre a floresta e o oceano.