Primeira valoração múltipla de benefícios naturais providos por florestas de manguezais na Amazônia brasileira destaca o papel fundamental dos manguezais no bem-estar local e subsidia políticas de conservação mais robustas no Brasil.
As florestas de mangue ao longo da Amazônia costeira brasileira fornecem serviços ecossistêmicos essenciais que sustentam diretamente o bem-estar humano. No entanto, seus benefícios raramente são quantificados de forma a refletir as realidades locais — especialmente no Sul Global, onde lacunas de dados limitam decisões eficazes de conservação. Um novo estudo contribui para preencher essa lacuna ao estimar o valor econômico de serviços ecossistêmicos chave dos manguezais, com base em entrevistas presenciais com moradores locais e especialistas que vivem adjacentes aos manguezais, produzindo resultados com relevância direta para as prioridades comunitárias e políticas públicas no Brasil.
Utilizando um experimento de escolha (choice experiment) — método que quantifica como as pessoas valoram diferentes benefícios e as compensações (trade-offs) — os Exploradores da National Geographic, Angelo Bernardino e Margaret Owuor, lideraram uma equipe para avaliar as percepções de múltiplos serviços ecossistêmicos de manguezais na Amazônia costeira. A abordagem, conduzida por meio de entrevistas individuais, foi desenhada para construir confiança, reduzir interpretações externas e aumentar a precisão na valoração dos serviços, garantindo adicionalmente que as vozes da comunidade fossem capturadas com clareza.
O estudo estima um valor econômico anual total de US$ 760 (cerca de 3.500 Reais) por família proveniente dos serviços ecossistêmicos dos manguezais. Quando escalonados para as extensas florestas de mangue da região, os achados sugerem um valor de US$ 215 por hectare de floresta de mangue preservada. Notavelmente, o benefício por família representa 47% da renda média anual dos municípios estudados, ressaltando a centralidade dos manguezais para o bem-estar econômico e social das famílias costeiras.
“Este trabalho demonstra que os manguezais não são apenas ecossistemas ricos em biodiversidade — eles são a base da vida cotidiana e da prosperidade local na Amazônia costeira”, afirmou Angelo Bernardino, Professor de Oceanografia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e pesquisador associado do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical da Universidade de São Paulo (CCARBON/USP). “Ao quantificar o que as comunidades já sabem na prática, fornecemos aos tomadores de decisão evidências que podem fortalecer a proteção e orientar investimentos onde eles são mais necessários.”

Por que isso é importante para as comunidades locais
Os serviços ecossistêmicos dos manguezais sustentam múltiplos aspectos do bem-estar das populações costeiras. Ao traduzir esses benefícios em valores econômicos comparáveis — baseados nas preferências expressas pelos próprios moradores — o estudo fornece evidências que podem apoiar a subsistência dessas comunidades, incluindo atividades, redução de riscos climáticos e manutenção de recursos vinculados à saúde do manguezal.
O trabalho também dá suporte a tomada de decisão mais justa nessas regiões, garantindo que as políticas reflitam o que as comunidades vizinhas mais valorizam. O estudo demonstra que o engajamento comunitário não é opcional na valoração ambiental — mas é parte essencial para a obtenção de números críveis e decisões legítimas.
Este trabalho também adiciona um suporte político importante ao governo brasileiro em um momento em que a restauração e conservação de manguezais estão sendo incluídas no plano climático do país. “O valor agregado dos serviços ecossistêmicos dos manguezais para as comunidades locais é um passo importante para apoiar os esforços de conservação e restauração do Brasil”, disse Angelo Bernardino. Como os serviços dos manguezais são frequentemente subestimados em análises de custo-benefício, eles podem ser negligenciados em decisões de uso da terra e no planejamento do desenvolvimento costeiro. Os achados do estudo oferecem uma base pronta para políticas que visem fortalecer as medidas de proteção aos manguezais, demonstrando sua alta contribuição para o bem-estar municipal.
Sendo o primeiro estudo a reconhecer e valorar explicitamente os serviços ecossistêmicos de manguezais sob a perspectiva dos moradores costeiros da Amazônia brasileira, a pesquisa estabelece uma base sólida para políticas que protejam tanto os ecossistemas quanto as comunidades que deles dependem.
Sobre o estudo: O estudo foi apoiado pela National Geographic Society e ROLEX através das expedições Perpetual Planet Amazon. Angelo Bernardino e Tiago O Ferreira são pesquisadores associados ao CCARBON/USP e bolsistas de Produtividade do CNPq.