Plantas de Cobertura: Aliadas da Agricultura Resiliente às Mudanças Climáticas

A adoção de plantas de cobertura pode melhorar a saúde do solo, aumentar a produtividade e fortalecer a resiliência da agricultura frente às mudanças climáticas

 

As plantas de cobertura são culturas semeadas com o propósito de melhorar a saúde do solo, proteger contra a erosão e aumentar a resiliência dos sistemas agrícolas. Em um contexto de mudanças climáticas e necessidade de maior sustentabilidade, essas plantas desempenham um papel fundamental na mitigação dos impactos ambientais da agricultura. Além de promoverem a diversificação dos sistemas produtivos, ajudam a conservar os recursos naturais e fortalecer a estabilidade das lavouras em condições adversas.

A adoção de plantas de cobertura tem sido reconhecida como uma estratégia eficaz para restaurar a fertilidade do solo e promover serviços ecossistêmicos essenciais. Elas aumentam a retenção de carbono no solo, melhoram sua estrutura e contribuem para o controle biológico de pragas e doenças. Em regiões tropicais há uma ampla variedade de espécies adaptadas, que podem ser cultivadas isoladamente ou em consórcios, potencializando os benefícios agronômicos e ambientais.

Quer saber como as plantas de cobertura podem transformar a agricultura e aumentar a resiliência das lavouras diante das mudanças climáticas? Continue lendo e descubra os benefícios e as melhores estratégias para integrá-las a um sistema produtivo!

 

Benefícios da introdução de plantas de cobertura em sistemas produtivos

Dentre os principais benefícios das plantas de cobertura para a produção agrícola, podemos destacar:

 

Manejo da Fertilidade do Solo

O uso de plantas de cobertura contribui significativamente para o aumento da matéria orgânica no solo, o que melhora a ciclagem de nutrientes e o estoque de carbono. Esse aumento na biomassa vegetal favorece a disponibilidade de nutrientes essenciais para as culturas subsequentes, como nitrogênio, fósforo e potássio. Além disso, as leguminosas promovem a fixação biológica de nitrogênio, que pode reduzir a necessidade de fertilizantes químicos, e as plantas não leguminosas ajudam a reduzir a lixiviação de nitrato.

 

Manejo de Tigueras e Plantas Daninhas

As plantas de cobertura desempenham um papel fundamental no controle de plantas invasoras. Elas competem por luz, água e nutrientes, o que limita o crescimento das plantas daninhas. Além disso, alguns tipos de plantas de cobertura têm efeito alelopático, liberando substâncias que inibem a germinação de sementes indesejadas. As plantas de cobertura também atuam como barreiras físicas, dificultando a emergência de plantas invasoras no solo.

 

Conservação do Solo e da Água

As plantas de cobertura ajudam na conservação do solo, protegendo-o da erosão causada pela água e vento. A vegetação reduz o impacto das chuvas e aumenta a rugosidade do solo, o que diminui o escoamento superficial e melhora a infiltração de água. Além disso, elas regulam a temperatura do solo e reduzem a evaporação, contribuindo para uma melhor retenção de água no solo. Isso é essencial em períodos de secas prolongadas. A presença das raízes também melhora a estrutura do solo, favorecendo a formação de bioporos que aumentam a retenção de água e o fluxo de ar no solo.

 

Promoção da Biodiversidade

O uso de plantas de cobertura contribui significativamente para o aumento da biodiversidade no solo e na paisagem agrícola. Essas plantas fornecem abrigo e alimento para uma ampla variedade de organismos benéficos, como microrganismos, insetos predadores e polinizadores, além de auxiliar na manutenção de inimigos naturais de pragas. A diversidade vegetal no solo também favorece a presença de diferentes grupos microbianos, melhorando a ciclagem de nutrientes e a supressão de patógenos. Com isso, a introdução de plantas de cobertura fortalece o equilíbrio ecológico, promovendo sistemas agrícolas mais resilientes e produtivo.

 

Aumento da Matéria Orgânica e Sequestro de Carbono

As plantas de cobertura contribuem significativamente para o aumento da matéria orgânica no solo, promovendo a melhoria da estrutura e fertilidade do solo a longo prazo. A biomassa produzida por essas plantas, quando incorporada ao solo, aumenta o teor de carbono orgânico, favorecendo a atividade microbiana e a formação de agregados estáveis. Além disso, as plantas de cobertura desempenham um papel essencial no sequestro de carbono atmosférico, auxiliando na mitigação das mudanças climáticas. Esse processo contribui para a redução dos impactos ambientais da agricultura, ao mesmo tempo em que melhora a saúde e a produtividade do solo.

 

Tipos de Plantas de Cobertura

Selecionar a planta de cobertura ideal para uma determinada área exige uma análise criteriosa das necessidades do solo e das condições climáticas locais. A seguir, conheça algumas categorias de plantas de cobertura e seus principais benefícios:

 

Leguminosas: Fornecimento de Nitrogênio

As leguminosas são excelentes fixadoras de nitrogênio, reduzindo a necessidade de fertilizantes sintéticos. Espécies como crotalária, amendoim forrageiro, ervilhaca e trevo ajudam a enriquecer o solo, melhorando sua fertilidade e estrutura. São indicadas principalmente para solos com baixa disponibilidade de nitrogênio e para sistemas que buscam maior sustentabilidade.

Crotalaria spectabilis (Foto: Larissa Bortolo)

 

Gramíneas: Proteção do Solo e Matéria Orgânica

As gramíneas, como milheto, aveia e braquiária, são altamente eficazes na produção de biomassa, contribuindo para a adição de matéria orgânica e a melhoria da estrutura do solo. Elas atuam na retenção de umidade, redução da compactação e controle da erosão, sendo ideais para áreas com solos mais frágeis ou inclinados.

 

Milheto – Pennisetum glaucum (Foto: Piraí Sementes)

 

Crucíferas: Reciclagem de Nutrientes

Plantas como nabo-forrageiro e mostarda possuem raízes profundas que quebram camadas compactadas do solo e ajudam na ciclagem de nutrientes. Elas favorecem o aproveitamento de elementos essenciais pelas culturas seguintes, otimizando o uso dos recursos naturais disponíveis.

 

Nabo forrageiro – Raphanus sativus (Foto: Viviana Meneghini)

Espécies Tolerantes à Seca: Adaptação a Climas Áridos

Em regiões com chuvas irregulares, é essencial escolher espécies adaptadas ao déficit hídrico. Algumas opções incluem sorgo forrageiro e feijão guandu, que suportam períodos prolongados de estiagem e continuam fornecendo cobertura vegetal ao solo.

 

Sorgo forrageiro – Sorghum bicolor (Foto: Ana Paula Maccari)

 

Manejo das Plantas de Cobertura

Para maximizar os efeitos benéficos das plantas de cobertura, é essencial um manejo adequado. Isso envolve desde a escolha da espécie até a forma de implantação e consórcio com culturas de interesse econômico. A seguir, apresentamos os principais aspectos do manejo de plantas de cobertura.

 

Época de Cultivo

A escolha da época de cultivo é fundamental para o sucesso das plantas de cobertura. No Brasil, há duas principais janelas de plantio: primavera-verão e final do verão até o inverno. Algumas regiões permitem o cultivo no inverno-primavera. No entanto, fatores climáticos, como restrição hídrica no Cerrado e baixas temperaturas no Sul, impactam a escolha da espécie.

 

Consórcio com Culturas Comerciais

Para otimizar o uso dos recursos disponíveis, muitas vezes as plantas de cobertura são consorciadas com culturas de interesse econômico, como milho e soja. Esse consórcio pode ocorrer de forma simultânea ou em diferentes momentos do ciclo da cultura principal, dependendo do potencial competitivo de cada espécie.

 

Métodos de Semeadura

A semeadura pode ser realizada em linha ou a lanço, e a escolha do método depende das condições da área e do objetivo da cobertura vegetal. A semeadura em linha proporciona maior uniformidade e melhor aproveitamento de nutrientes, enquanto a semeadura a lanço é mais rápida e viável para grandes áreas.

 

Mix de Plantas de Cobertura

O uso de diferentes espécies no mesmo sistema, conhecido como mix de plantas de cobertura, favorece uma abordagem mais abrangente para melhorar o solo. A combinação de espécies com diferentes funções, como fixação de nitrogênio, crescimento radicular vigoroso e alta produção de biomassa, garante um aproveitamento mais eficiente dos recursos.

 

Manejo de Tigueras e Plantas Daninhas

Um fator crítico para o sucesso das plantas de cobertura é o controle de tigueras (plantas espontâneas de culturas anteriores) e de plantas daninhas. Métodos culturais, como a rotação de culturas e o efeito supressor da cobertura vegetal, são estratégias eficazes. O manejo mecânico e químico também pode ser necessário para evitar a competição e a disseminação de pragas e doenças.

 

Plantas de Cobertura: Avanços Recentes e Seu Impacto na Sustentabilidade e Resiliência Climática

Pesquisadores do CCARBON/USP e outras instituições parceiras demonstraram como a diversificação dos sistemas agrícolas com plantas de cobertura pode melhorar a saúde do solo, aumentar a produtividade e tornar as culturas mais resilientes a estresses climáticos. O estudo, realizado ao longo de cinco anos no bioma Cerrado, avaliou o impacto de diferentes sistemas de sucessão da soja, comparando o uso de culturas de cobertura e milho como segunda safra. Foram analisados oito indicadores de saúde do solo, incluindo carbono orgânico, estabilidade de agregados e densidade do solo, além da produtividade da soja para correlacionar a saúde do solo com o rendimento e a resiliência da cultura.

Os resultados mostraram que o uso de misturas de plantas de cobertura e braquiária após a soja melhorou significativamente os indicadores biológicos do solo, aumentando a produtividade e reduzindo a variação dos rendimentos em resposta ao clima. O estudo apontou que solos mais saudáveis estavam diretamente ligados a maior estabilidade na produção, com a atividade da β-glicosidase explicando 35% da resiliência da soja a estresses climáticos. Essas descobertas ressaltam o potencial das plantas de cobertura na construção de sistemas agrícolas mais sustentáveis, produtivos e adaptáveis às mudanças climáticas, especialmente em regiões tropicais como o Brasil.

 

Desafios do uso de plantas de cobertura

O uso de plantas de cobertura traz diversos benefícios, mas também enfrenta desafios que devem ser considerados para sua implementação eficiente. Um dos principais obstáculos está relacionado ao manejo adequado dessas plantas, que pode variar conforme as condições climáticas e regionais. Fatores como o tipo de solo, a disponibilidade hídrica e a cultura principal influenciam na escolha das espécies mais apropriadas. Além disso, a competição por nutrientes pode impactar negativamente o desenvolvimento da cultura comercial.

Outro desafio importante está relacionado à interação entre plantas de cobertura e pragas ou doenças. Embora muitas espécies sejam eficazes na interrupção dos ciclos de patógenos, algumas podem atuar como hospedeiras para pragas e doenças que afetam culturas comerciais. Isso reforça a necessidade de um manejo fitossanitário adequado, incluindo a adoção do vazio sanitário para evitar a proliferação de pragas e doenças. Além disso, a escolha inadequada das espécies de cobertura pode resultar em problemas agronômicos, como a competição por água em períodos de estiagem. Assim, o sucesso no uso das plantas de cobertura depende do planejamento cuidadoso e da escolha de espécies adequadas para cada região e sistema produtivo.

 

Considerações finais

As plantas de cobertura desempenham um papel essencial na adaptação e mitigação das mudanças climáticas. Elas contribuem para o sequestro de carbono, aumentam a matéria orgânica do solo, melhoram a retenção de umidade e reduzem a erosão, tornando os sistemas agrícolas mais resilientes a eventos climáticos extremos. No entanto, para maximizar esses benefícios e minimizar impactos negativos, é fundamental investir em pesquisas contínuas que aperfeiçoem o manejo das espécies e sua adaptação às diferentes condições climáticas e produtivas.

Para se aprofundar ainda mais nesse tema, acesse o “Guia prático de plantas de cobertura: espécies, manejo e impacto na saúde do solo” e conheça as principais plantas de cobertura cultivadas no Brasil.

 

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Leia também:

Agricultura Regenerativa: o caminho para uma produção sustentável

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Principais fontes:

CHERUBIN, Maurício Roberto. et al. Guia prático de plantas de cobertura: espécies, manejo e impacto na saúde do solo. Universidade de São Paulo. Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, 2024.  DOI: https://doi.org/10.11606/9786587391618 Disponível em: www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/1340 . Acesso em 12 março. 2025.

Souza, V.S.; Canisares, L.P.; Schiebelbein, B.E.; Santos, D.C.; Menillo, R.M.; Pinheiro Junior, C.R.; Cherubin, M.R. Cover crops enhance soil health, crop yield and resilience of tropical agroecosystem, Field Crops Research, Volume 322, 2025, 109755, 2025 ISSN 0378-4290, https://doi.org/10.1016/j.fcr.2025.109755.